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Caldeirão: 73 anos do massacre de agricultores no semi-árido

comunidade-caldeirãoA comunidade do Caldeirão era liderada pelo beato paraibano José Lourenço e apoiada por Padre Cícero. Tratava-se de uma área de 500 hectares em que se construía uma comunidade auto-sustentável. Naquele chão, no interior do Ceará, tudo era feito em sistema de mutirão e cooperação. As obrigações eram divididas e os benefícios distribuídos conforme as necessidades de cada um.

Após os primeiros anos de adaptação, as atividades foram diversificadas e a comunidade caminhou para a auto-suficiência, produzindo quase tudo de que precisava: desde roupas e sabão até panelas, copos e baldes. Para tanto, os artesãos, carpinteiros e ferreiros utilizavam matéria-prima local. Os tecidos, por exemplo, eram feitos com algodão cultivado na própria fazenda. O que não conseguiam obter ali era comprado nas cidades próximas.

A Desapropriação da comunidade do Caldeirão no semi-árido cearense gerou um saldo de 700 mortos (400, segundo dados oficiais).  Naquele dia, a polícia militar do Ceará e os aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) metralharam crianças, homens e mulheres — religiosos e pacíficos — que, por dez anos, tinham buscado apenas uma forma de sobreviver às mazelas da vida sertaneja: seca, fome e coronelismo. Nenhum soldado morreu.

No Museu Histórico do Ceará há poucos vestigios do Caldeirão: a bandeira da Comunidade (em um armário com vidro tem manchas de sangue), três reproduções fotográficas publicadas em jornal da época e uma espingarda aparentemente não muito manuseada ao lado de um machado.

Em 21 de março de 2005, o Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará (Coepa) tombou uma área de 60 hectares pertencente ao núcleo do que um dia foi o sítio Caldeirão. Com isso, o governo estadual tenta corrigir um erro histórico, reconhecendo a importância do episódio em que migrantes, principalmente do Rio Grande do Norte, viveram uma utopia de igualdade e auto-suficiência. A medida, porém, não pode reparar a morte dos 700 seguidores de José Lourenço, discípulo do padre Cícero.

Para saber mais: Documentário O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, 1986, e Um Beato Líder – Narrativas Memoráveis do Caldeirão, publicado em 2004, pelo pesquisados Sávio Cordeiro. Também tem “De Caldeirão a Pau de Colher: A guerra dos caceteiros”, do geólogo e pesquisador baiano Ruy Bruno Bacelar de Oliveira. “Cangaceiros e Fanáticos”, de Rui Facó e “O Messianismo no Brasil e no Mundo”, de Maria Isaura Pereira de Queiroz.

Não deixe de ler a reportagem sobre os 70 anos do massacre no site Repórter Brasil. Você vai descobrir, inclusive, que no Brasil já teve campos de concentração. Há também matéria no site A nova Democracia.

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